A primeira vitória de Kevin Fontainha na GP1000 by Motul, conquistada no último fim de semana em Cascavel (PR), não foi apenas resultado de velocidade. Foi também uma demonstração de leitura de corrida, tomada de decisão e maturidade de um piloto de apenas 19 anos que está disputando sua primeira temporada na principal categoria do MOTO1000GP.
Em entrevista, Fontainha contou detalhes de um dos momentos decisivos da corrida no Autódromo Zilmar Beux, quando precisou recuperar a posição após a ultrapassagem de Maxi Scheib. O piloto da Honda Racing revelou que a manobra já estava, de certa forma, prevista em sua leitura da pista.

Segundo Kevin, Scheib não realizou a ultrapassagem exatamente no ponto de frenagem, mas já no meio da curva. Foi justamente isso que abriu espaço para a resposta do piloto brasileiro.
“Quando eu vi que ele passou, eu sabia que ele ia esparramar e eu poderia dar o X”, explicou Fontainha.
A estratégia funcionou. Kevin conseguiu cruzar a trajetória de Scheib e recuperar a posição, em uma das decisões que contribuíram para a vitória por apenas 0s169 de vantagem sobre o chileno.
Para o piloto, o episódio foi muito mais relacionado ao chamado “feeling” de corrida do que a uma manobra previamente desenhada.
“Eu freiei muito mais tarde de onde eu estava freando e mesmo assim ele ainda tentou”, contou.
A adaptação à moto de 1.000 cilindradas

A temporada de 2026 representa uma mudança significativa na carreira de Fontainha. Depois de competir em categorias de menor cilindrada e acumular experiência internacional, o paulista chegou à GP1000 para encarar pela primeira vez uma superbike de alto desempenho.
A adaptação, porém, mostrou que uma moto mais potente não significa necessariamente que um erro terá consequências menores. Pelo contrário.
Kevin conta que descobriu justamente o oposto durante sua adaptação à categoria.
“Falavam que na mil, se você errar, você não perde tanto tempo comparado aos outros pilotos por conta da força dela. Eu acho que é o contrário. Na mil você perde muito tempo se você errar”, afirmou.
A diferença está na forma como a potência interfere no comportamento da motocicleta. Com uma máquina muito mais potente, corrigir um erro exige precisão e controle, especialmente nas saídas de curva, onde a entrega de potência pode comprometer rapidamente a trajetória.
Essa foi uma das principais lições aprendidas por Fontainha durante sua primeira temporada com a Honda CBR1000RR-R Fireblade SP.
Eric Granado como professor e companheiro

Dentro da Honda Racing, Kevin também tem uma referência privilegiada para acelerar seu processo de aprendizado: Eric Granado.
Mais experiente e um dos principais nomes da motovelocidade brasileira, Granado divide a estrutura da equipe com Fontainha e tem contribuído diretamente para sua evolução.

Para Kevin, ter Granado por perto é praticamente contar com um professor dentro do próprio box.
“Ele tem muita experiência com a moto, tem muita experiência com a CBR e me ajuda bastante”, destacou.
Entre os conselhos recebidos, um deles ganhou importância especial: manter a calma.
“O maior conselho que ele me deu foi para ser calmo com essa moto”, revelou.
Fontainha também reconheceu que precisou aprender essa lição da maneira mais difícil. Em Curvelo, durante a terceira etapa do campeonato, uma tentativa de ser mais agressivo acabou contribuindo para uma queda que prejudicou sua pontuação na temporada.
“A mil não é igual uma 300, não é igual uma 600. Você tem que ser muito calmo com a moto. Não adianta se afobar e querer abrir o gás antes”, explicou.
Uma vitória não encerra o aprendizado

Apesar de ter conseguido um dos resultados mais importantes de sua carreira, Kevin demonstra uma postura pouco comum para um piloto que acaba de conquistar sua primeira vitória na principal categoria do campeonato.
Em vez de tratar o resultado como confirmação de que já chegou ao nível dos principais pilotos do grid, ele prefere enxergar Cascavel como mais uma etapa de um processo de evolução.
“Não é porque eu ganhei a corrida desse final de semana que não tenho o que aprender”, afirmou.
O piloto lembra que aquela foi apenas sua quarta etapa com a Honda Racing e com a CBR1000RR-R Fireblade SP.
“Tenho muito ainda que desfrutar com a moto, aprender com o Eric e com a equipe”, acrescentou.

A evolução, no entanto, já vinha aparecendo antes da vitória. Depois de uma estreia complicada em Interlagos, Fontainha começou a mostrar velocidade em Curvelo e deu um passo importante em Goiânia, quando conquistou seu primeiro pódio na temporada.
Na segunda etapa, o piloto terminou a Sprint na segunda posição e a corrida principal em quarto, resultado que o colocou entre os protagonistas da GP1000.
Na etapa seguinte, em Curvelo, voltou ao pódio na Sprint, terminando em terceiro ao lado de Eric Granado, que foi segundo.
A própria Honda Racing já destacava, antes da terceira etapa, que Fontainha ocupava a quarta colocação do campeonato e vinha construindo uma temporada de aprendizado em sua estreia na categoria.
Mais experiência para transformar velocidade em regularidade
O próximo desafio, segundo o próprio Kevin, não está necessariamente em encontrar mais velocidade. A base já existe.
O que ele considera fundamental agora é acumular quilometragem e experiência para transformar o ritmo demonstrado em resultados mais constantes.
“São horas de voo em cima da moto que vão me manter meu ritmo bom”, explicou.
O piloto também citou aspectos fundamentais para essa evolução, como preparação física, gerenciamento dos pneus e capacidade de administrar corridas longas.
“Quanto mais voltas, mais horas de voo em cima da moto”, resumiu, destacando a importância de aprender a administrar pneus e entender o comportamento da moto durante as provas.
Os números ajudam a dimensionar o avanço. Depois de apenas duas etapas, Fontainha já aparecia em quarto lugar na classificação da GP1000, com 36 pontos. Após a terceira etapa, mesmo tendo perdido pontos importantes com a queda em Curvelo, seguia entre os cinco primeiros, com 46 pontos.

A pressão pelos resultados
A cobrança, entretanto, não veio apenas de fora. Kevin revelou que estabeleceu para si mesmo uma meta bastante ambiciosa desde o começo do campeonato.
“Desde o começo do ano eu tive essa cobrança de estar entre os três primeiros de cara”, revelou.
A equipe, segundo ele, teve papel importante para controlar essa expectativa e evitar que a busca por resultados acabasse prejudicando seu desenvolvimento.
“A equipe vem me tranquilizando muito em relação a isso, de não me cobrar e sim me divertir em cima da moto”, contou.
Foi justamente essa mudança de postura que, na visão de Kevin, ajudou a construir o resultado em Cascavel.
“Cascavel eu entrei para me divertir. Sabia que tinha velocidade, que tinha ritmo”, explicou.
Com confiança, bom gerenciamento dos pneus e uma pilotagem mais controlada, o resultado apareceu.
Agora, Interlagos

A vitória em Cascavel coloca Kevin Fontainha em uma posição diferente dentro da GP1000. Ele já não chega às próximas etapas apenas como o jovem piloto que está aprendendo uma nova categoria. Agora existe também a expectativa sobre o que poderá fazer depois de provar que tem ritmo para vencer.
Mas o próprio piloto prefere manter os pés no chão.
A prioridade, segundo ele, é continuar seguindo o trabalho desenvolvido pela Honda Racing e chegar preparado à próxima etapa, novamente em Interlagos.
“É continuar trabalhando do jeito que a gente vem trabalhando e chegar em Interlagos com bom acerto para a moto, trabalhar em cima dela e conseguir um bom resultado”, afirmou.
A postura resume bem o momento de Fontainha: a primeira vitória já está no currículo, mas o piloto não parece disposto a tratá-la como ponto de chegada.
Aos 19 anos, em sua primeira temporada na GP1000 e ainda conhecendo os limites da CBR1000RR-R Fireblade SP, Kevin Fontainha começa a transformar potencial em resultados. E, talvez mais importante, demonstra entender que a velocidade necessária para vencer já existe. O próximo passo será aprender a utilizá-la com consistência.
A Honda Racing apresentou Fontainha para a temporada 2026 justamente como um dos nomes da nova geração da motovelocidade brasileira. O paulista chegou à equipe após experiências internacionais no Mundial de Superbike, na categoria Supersport 300, e assumiu o desafio de estrear diretamente com uma superbike de 1.000 cilindradas.
Em Cascavel, ele deu a primeira grande resposta. Agora, resta descobrir até onde essa evolução pode levá-lo.













