O domínio de Marc Márquez na MotoGP não se resume apenas à velocidade pura ou ao talento natural. Na visão de Casey Stoner, bicampeão mundial da categoria, o espanhol construiu sua superioridade atual a partir de dois pilares fundamentais: inteligência de corrida e gestão refinada dos pneus.
Stoner, que se aposentou em 2012 e foi justamente substituído por Márquez na Honda, acompanhou toda a trajetória do espanhol à distância. Para o australiano, embora o talento de Márquez nunca tenha sido questionável, o que o diferencia hoje é a forma como ele utiliza todo o seu potencial técnico durante as corridas — algo que poucos rivais conseguem fazer de maneira consistente.
“Há muitos pilotos rápidos no grid, mas poucos sabem usar todo o potencial técnico em corrida. É aí que o Marc se destaca”, afirmou Stoner.
Inteligência construída na adversidade
Após conquistar seu último título em 2019, Márquez passou seis temporadas sem levantar o troféu máximo da MotoGP. Um período marcado por lesões graves, queda de competitividade da Repsol Honda Team e, posteriormente, pela mudança para a Gresini Racing, até chegar à equipe oficial da Ducati.
Para Stoner, esse intervalo foi decisivo para transformar Márquez em um piloto mais completo.
“Esses anos difíceis deram a ele um novo nível de força, inteligência e paciência. Hoje, ele é mais estratégico do que era no auge físico da década de 2010.”
Segundo o australiano, o Márquez atual vence menos pela agressividade extrema e mais pela leitura precisa da corrida, sabendo exatamente quando atacar e quando preservar.
Gestão de pneus: o grande diferencial
Um dos pontos mais destacados por Stoner é a forma como Márquez cuida dos pneus ao longo da prova. Para ele, esse aspecto passou despercebido por muitos adversários, especialmente ao longo da temporada 2025.
“Um tema recorrente que vi em 2025 foi a paciência dele com os pneus. Pouca gente percebeu isso.”
Stoner compara esse comportamento ao de Max Verstappen na Fórmula 1: pilotos que não extraem tudo imediatamente do pneu novo, preferindo construir ritmo aos poucos para ter vantagem decisiva no fim do stint — ou, no caso da MotoGP, nas voltas finais da corrida.
Essa leitura permite que Márquez seja extremamente forte no final das provas, quando muitos rivais já sofrem com queda acentuada de aderência.
Menos eletrônica, mais sensibilidade
Outro fator-chave apontado por Stoner é a maneira como Márquez pilota “à frente” da eletrônica. Em vez de depender excessivamente dos sistemas de controle de tração, o espanhol evita provocar reações bruscas da moto, preservando a borracha desde o início.
“A eletrônica só reage depois que o problema acontece. O Marc evita que ela precise entrar em ação.”
Esse estilo reduz o desgaste irregular do pneu e mantém a aderência em um nível mais alto quando a corrida entra em sua fase decisiva. Segundo Stoner, quando a eletrônica finalmente precisa atuar, Márquez ainda dispõe de mais grip do que seus adversários.
Um estilo que lembra os grandes mestres
A análise ganha ainda mais peso por vir de alguém conhecido justamente por pilotar com mínima dependência eletrônica. Stoner, formado nas pistas de terra da Austrália, sempre foi reconhecido por sua sensibilidade extrema com o limite de aderência.
“Um piloto que entende onde está o limite antes da eletrônica sempre será mais rápido.”
Na visão do australiano, Márquez hoje compartilha dessa mesma leitura fina: entra nas curvas com mais controle, levanta a moto mais cedo, reduz derrapagens e administra a corrida com uma maturidade rara no grid atual.
Conclusão
Para Casey Stoner, o segredo do domínio recente de Marc Márquez não está em fazer algo radicalmente diferente a cada corrida, mas em repetir, com precisão cirúrgica, uma fórmula baseada em paciência, inteligência e leitura técnica impecável.
Enquanto muitos ainda enxergam apenas o Márquez agressivo e imprevisível, o espanhol de hoje vence corridas entendendo exatamente qual parte da prova já está ganha — e qual ainda precisa ser construída.











